Os cinco em Marte

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A engenharia portuguesa pegou na cortiça e inovou a pensar no espaço

Um consórcio 100% português entrou no projeto de exploração de Marte da Agência Espacial Europeia (ESA). Pegou na cortiça, juntou-lhe engenharia e inovação e criou uma cápsula de reentrada atmosférica inovadora que promete ser uma referência em novos desenvolvimentos para missões espaciais. Como nestes projetos tudo tem de ser pensado a longo prazo, a nova cápsula ainda pode ter de esperar alguns anos para ir a Marte e voltar à Terra com amostras de solo do planeta vermelho. Mas está dado o pontapé de saída para uma nova solução, assente em engenharia nacional, que coloca mais uma vez a cortiça na órbita dos negócios fora da atmosfera terrestre.

O desafio foi colocado pela ESA. A resposta foi dada por um consórcio liderado pela Amorim Cork Composites em que participam, também, a Critical Materials, o Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros (PIEP) e o Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ). Na nova cápsula, as quatro entidades usaram a cortiça, uma matéria-prima em que Portugal é líder mundial na produção e transformação, surgindo, assim, como o quinto elemento deste consórcio.

O projeto, com o nome de código cTPS, exigiu dois anos e meio de trabalho e um investimento de €400 mil. O resultado, já validado pela ESA, permite simplificar a reentrada de cápsulas espaciais na Terra.

Como? “Demonstrámos ser possível ter uma cápsula de impacto passivo sem sistemas auxiliares”, destaca Paulo Antunes, da Critical Materials. E explica: a nova cápsula “tem características termomecânicas otimizadas a uma reentrada atmosférica passiva, o que significa que não precisa de paraquedas nem de outros sistemas auxiliares de atenuação de forças de impacto na fase de contacto com a superfície terrestre, mas garante a integridade estrutural do reservatório que vai conter as amostras do solo de Marte”.

A engenharia portuguesa oferece assim à ESA uma solução mais simples, mais leve, “25% abaixo do peso máximo exigido”, e com garantia de redução dos custos de produção.

Paulo Antunes acredita que, depois deste “projeto de elevada complexidade técnica”, tudo poderá ser “mais fácil no futuro”, quando as empresas lusas quiserem entrar em aventuras espaciais. “A ESA funciona muito com base no histórico”, diz. Assim, o consórcio assume já a ambição de desenvolver mais soluções para a ESA e até de aumentar a sua participação no programa de exploração de Marte para recolha e análise de amostras do solo do planeta.

NOVOS PROJETOS NO RADAR

“A criação desta competência-nicho e a articulação do consórcio permite a participação num conjunto de novos projetos de desenvolvimento e evolução da tecnologia, no contexto da ESA e de outras agências espaciais, que têm um valor estimado de €12 milhões nos próximos cinco anos”, refere Paulo Antunes.

No caso do PIEP, depois do cTPS já surgiu outro projeto para a ESA, voltado para o desenvolvimento e produção de filamento termoplástico de elevado desempenho, eletricamente condutor, para impressão 3D de componentes aeroespaciais.

Na verdade, os quatro parceiros têm todos atividade na área espacial no currículo, e a Amorim Cork Composites, líder do consórcio, trabalha com a indústria aeroespacial desde o início da sua atividade, que coincidiu com a participação no programa espacial Apollo, nos anos 60.

Para dar vida à nova cápsula fizeram três protótipos, um à escala real e dois mais pequenos. Depois testaram o embate na Terra a uma velocidade de 140 km/h em Castelo Branco, onde reproduziram as características do solo do deserto australiano, local provável do impacto com a Terra, a 40 m/s. Para o lançamento do protótipo, usaram uma grua de 85 metros de altura.

Quanto ao compósito de cortiça, será usado nesta viagem espacial como barreira térmica entre a estrutura primária da cápsula, à base de resina e fibra de carbono, e uma espuma rígida. “Este é um projeto de enorme complexidade técnica, o balanço final é extremamente positivo e os comentários que recebemos também”, sublinha Paulo Antunes.

Para chegar ao planeta vermelho, a cápsula do consórcio português irá num foguetão. Por lá ficará em órbita e só depois de receber as amostras de solo é que regressará à Terra, a bordo de uma nave espacial.

http://expresso.sapo.pt/economia/2018-03-31-Os-cinco-em-Marte#gs.kfCx45E

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