Células dão um “sinal de alarme” antes do cancro do esófago

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Instituto Gulbenkian de Ciência

 

Centrossomas e cancro do esófago: um estudo do grupo de Mónica Bettencourt Dias, do Instituto Gulbenkian de Ciência, e de Paula Chaves, do IPOLisboa, sugere que a amplificação dos centrossomas pode contribuir para o início e progressão de neoplasias. O artigo foi publicado ontem na revista Journal of Cell Biology.

Células dão um “sinal de alarme” antes do cancro do esófago

Equipa de investigadores portugueses acompanhou doentes com esófago de Barrett, uma doença que será causada por refluxo crónico, e detectou uma anomalia nas células ainda na fase pré-maligna dos casos que mais tarde evoluem para cancro

São os centrossomas, uma espécie de torre de controlo das células que é fundamental no processo de divisão celular, que fazem soar a campainha de alarme antes do cancro do esófago. Uma equipa de investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), em Oeiras, e do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa analisou várias amostras de doentes com esófago de Barrett, uma doença que está associada ao cancro do esófago, e concluiu que as células que se vão tornar cancerosas começam a acumular centrossomas ainda numa fase pré-maligna. Este sinal de alerta pode servir como uma importante ferramenta de diagnóstico para este e outros tipos de cancro.

Nas células saudáveis só existe um centrossoma. Por outro lado, uma das características que distinguem as células cancerosas é precisamente o facto de terem centrossomas a mais. Estes são, portanto, os cenários que já conhecíamos há muito tempo: um centrossoma nas células saudáveis e muitos no cancro. O que a equipa liderada por Mónica Bettencourt Dias, do IGC, e Paula Chaves, do IPO, nos mostra agora é um momento que fica no meio destes dois cenários.

Num artigo publicado esta terça-feira na revista Journal of Cell Biology, os investigadores concluem que a amplificação dos centrossomas nas células que se vão tornar cancerosas começa ainda na fase pré-maligna nos doentes com esófago de Barrett. Ou seja, há um “sinal de alarme” numa fase precoce, antes da neoplasia, para os casos que vão evoluir para cancro. E, segundo Carla Lopes, investigadora do IGC uma das primeiras co-autoras do artigo assinado ainda com Marta Mesquita, do IPO, este sinal pode servir não só para o cancro de esófago mas para outros tipos de cancro.

Menos de 1% dos doentes com esófago de Barrett, uma doença que será causada pela exposição prolongada a ácidos do estômago por refluxo crónico, evolui para cancro do esófago. No entanto, uma vez que esta doença se caracteriza por uma mudança anormal (uma metaplasia) nas células do tecido do esófago, estes casos são normalmente acompanhados e vigiados. Os investigadores do IGC e IPO aproveitaram esta vigilância para analisar amostras de tecido recolhido nas endoscopias e biópsias. A área clínica uniu-se à investigação básica. “Este modelo de cancro é muito interessante porque permite observar várias fases, desde a condição pré-maligna, que é a metaplasia, à que vem a seguir, a displasia, que é já o início do processo de transformação e depois o carcinoma, que é o cancro”, refere Mónica Bettencourt Dias ao PÚBLICO.

https://www.publico.pt/2018/05/09/ciencia/noticia/celulas-dao-um-sinal-de-alarme-antes-do-cancro-do-esofago-1829302